Prefeitura Municipal

Tiros-MG

Última Atualização do Site:
27/07/2017 09:53:44





Histórico

A memória é um fenômeno sempre atual, uma ligação do vivido com o eterno presente; a história é uma representação do passadoPierre Nora


Introdução

Tiros é uma marca minúscula no mapa. Muitos que ouvem seu nome se espantam. No entanto, entre o tamanho e a estranheza do topônimo há uma corrente de fatos que percorrem os anos de 1590 aos anos de 2000. Não são somente 412 anos, são lugares e raças em marcante transformação. É muito mais que um lugar tranqüilo para se descansar. Talvez, através da história de Tiros, não se note uma semelhança com cidades pólos, de significativa influência, nota-se, no entanto, a veia que germina o pulso da aventura, da hospitalidade e do sonho. Mas, Tiros já foi capital do diamante, como observa José Pessoa. Se assim o foi em seu percurso histórico, Tiros deve ser mais que uma cidade pequena localizada ao Oeste de Minas.

Contudo, são baixos os números que relatam o seu histórico. Tem 7571 habitantes; 3 escolas públicas e 1 particular; 1 cooperativa rural; 1 agência bancária; 1 hospital, 1 creche.

Um pouco mais amplos apresentam-se os índices de alfabetização, 87,3 e a área de 2093 km2.

Na economia sua maior fonte vem da agropecuária.

A cidade de Tiros fica geograficamente à margem, pois é final de linha em relação as rodovias que a ligam a outros locais. Na direção noroeste, o acesso é difícil, constituído por rodovias municipais não pavimentadas. As cidades de que mais depende em vários aspectos, como saúde, educação, comércio, são Patos de Minas e São Gotardo.

Limita-se com os municípios de Arapuá, Carmo do Paranaíba, Patos de Minas, São Gonçalo do Abaeté, Morada Nova de Minas, Biquinhas, Paineiras, Cedro do Abaeté, Quartel Geral, São Gotardo e Matutina. O município tem dois distritos: Tiros e Canastrão. As distâncias que mantém de seus centros de influência são de 365 km para Belo Horizonte; l10 km para Patos de Minas, 50 km para São Gotardo.

Tiros faz parte da região do Alto Paranaíba, na Mata da Corda, e Planalto São Francisco. Possui relevo modulado e rochas sedimentares. A vegetação é formada por chapadas tropicais, cerrados e pontos ciliares. O relevo é constituído por chapadas e dissecados por processos erosivos. A média anual de temperatura é de 22,3º. O município é banhado por três rios: Abaeté, Indaiá e Borrachudo.

Por dados aparentemente limitados, não devemos acreditar que a história dessas informações seja pouco importante. Pois, diante da restrita bibliografia de Tiros, não se deve incorrer no engano de acreditar que limitada também seja a bibliografia que a ela se liga, ou a memória que ela desperta.

E nesta cidade, embora simples, foram muitos os fatos marcantes e históricos, impossíveis de serem todos elucidados aqui. No risco de se edificar uma dívida, serão levantados alguns aspectos que parecem importantes. No entanto, o leitor deve considerar o caráter desta pesquisa, que é o de fazer parte dos arquivos do Patrimônio Histórico de Tiros. No mais, este texto visa em seu fim último, deixar margens às pesquisas futuras.

Sertão Indígena

“Depois de exterminada a última nação indígena, e o espírito dos pássaros, das fontes de água límpida; mais avançado que a mais avançada das mais avançadas das tecnologias...” Caetano Veloso

Para se contar uma história é necessário buscar os rastros que dela ficam, mesmo quando as pegadas não estão marcadas por inteiro. No caso de Tiros, vamos perceber nessas marcas o habitat dos índios, a busca pelo brilho do diamante, a expansão da agropecuária, a economia e o êxodo rural, a emigração para os Estados Unidos.

Os índios foram os primeiros habitantes da região do Alto Paranaíba, situada na mata da Corda. Pedaços de cerâmicas, urnas mortuárias, armas de defesa e ferramentas, são indícios de suas presenças, que ainda são vistos na região conforme relata José Resende Vargas, no livro “Rio Paranaíba”. Além dos índios “Arachás”, que foram mais abundantes, outras tribos também viviam na região, como: Cataguás, Kaypós, Goynazes, Caetés e Tapuyus.

Eles viviam no sertão com poucas passagens para transitarem, quando já em 1590 começaram a chegar os primeiros homens “civilizados” para abrirem caminhos em busca das riquezas mineiras. Situação que fez com que, nos idos de 1700, índios e escravos se unissem na formação dos Quilombos, para se protegerem do inimigo branco.

Contudo os escravos, de modo diferente aos índios que viviam tranqüilamente no sertão, vieram do continente africano para servirem de força de trabalho nas minas de diamantes, já com experiência desse exercício em suas terras; os negros, além de serem forçados ao trabalho, eram seduzidos pela beleza do diamante, e ao índio o que importava realmente era a liberdade e as matas, pouco a pouco desgastadas. O negro só conseguia chegar ao quilombo quando fugia, ou comprava sua liberdade se tinha a sorte de encontrar uma pedra de diamante em tamanho valioso.

Mas entre o encontro do índio com o escravo houve a descoberta de leitos férteis de minas, as picadas que abriam estradas e o povoamento, muito ramificado pela terra mãe, o lugar que hoje é a cidade de Pitangui e também pelo Distrito Diamantino-Tejuco.


De Grimpeiros a Garimpeiros

A ação humana não está sujeita ao determinismo causal, nem apenas à necessidade: o acaso é parte da história. Mais ainda: o acaso é o ponto de partida da própria história”. Adauto Novaes

Mesmo com a proibição de se extrair os diamantes em Minas Gerais, os rios Indaiá e Abaeté eram livres e, não se importando com o monopólio dos portugueses sobre as pedras preciosas, muitos negros as extraiam; o que se dava sem conotar infração. Fato que foi denominado como contrabando, já que a Coroa era a “proprietária” destas terras de que viriam também formar o Brasil de hoje.

Foi em 1729 que se encontrou o diamante, em plena abundância do ouro, conforme observações feitas por José Pessoa acerca dos seus primeiros exploradores:

“Na época das minerações de ouro em Pitangui, pouco depois de 1700, muitos negros fugidos das minerações subiram a Serra de Marcela, ou Saudade, onde formaram quilombos, como o Quilombo das Macaúbas (divisa de Tiros com Paineiras) e outros mais longínquos, mas todos considerados pertencentes ao império de Ambrósio. Ambrósio era o rei de um vasto quilombo, repartido em “filiais” cuja sede era “Quilombo do Ambrósio”, situado nas redondezas de São Gotardo, próximo a Ibiá. Esses negros escravos, os quilombolas, fugidos das minerações de Pitangui, garimpavam livremente nos rios Indaiá e Abaeté mesmo antes de se ter conhecimento de diamantes naqueles rincões.” (Raízes de São Gotardo, José Pessoa - p 86)

Apenas em 1745, foi, oficialmente, comunicado ao Intendente do Diamante no Tejuco (Diamantina) o descobrimento de ouro em Paracatu. E sendo o Rio Paracatu, como o Indaiá e Abaeté, afluentes do Rio São Francisco, os exploradores auríferos rapidamente chegaram também aos leitos dos

Diamantes. Outros fatores também contribuíram para que diferentes perfis chegassem aos leitos das pedras brilhantes. Nesta época, estava em vigor a lei de Pombal; em Tejuco havia grande abundância de diamantes e muitos expulsos por não respeitarem a lei; em Pitangui o ouro escasseava. Assim, aos expulsos de Tejuco e aos mineradores de uma Pitangui pobre em ouro, restava a nova esperança: as ricas pedras dos Rios Abaeté e Indaiá.

“Essa população de garimpeiros aumentava de ano para ano, nos municípios de São Gotardo, Tiros, Abaeté. Só o garimpeiro José Basílio, expulso do Tejuco pela milícia da Coroa, aliciou centenas e mais centenas de garimpeiros naquela região e estabeleceu-os em vários locais de garimpos nas beiras de nossos rios”. (Raízes de São Gotardo, José Pessoa - p 87)

No entanto, o intendente enviou tropas de soldados de Paracatu à beira do Indaiá, com o intuito de reprimir o “contrabando” à coroa portuguesa. Fato que aumentou a população, já que isso fez com que soldados e garimpeiros se unissem para ludibriar a Coroa, aumentando o número de pessoas e famílias na região, bem como os furtos à coroa.

Em 1790, Tejuco assume a luta pelos diamantes na região da Mata da Corda. (Na época, ao referir-se a região dos Rios Indaiá-Abaeté denominavam-na, Nova Lorena.) E envia, então, para a recém oficializada mina, inúmeros escravos que devem trabalhar forçosa e passivamente. Com isso, Regimento do Diamante (lei de Pombal), documento constitucional, regulamentador desse sistema repressivo que já existia em Tejuco, passa a vigorar também nesta região. O que segundo José Pessoa, fez com que uma espécie de duas colônias convivessem numa mesma colônia: a Província de Minas Gerais e o Distrito do Diamante.

Isso causou um certo desequilíbrio na extração real dos diamantes. Pois, conforme relatos históricos, gastou-se muito tentando coibir o “contrabando” e não se lucrou tanto quanto era esperado, pelo menos no caso dos diamantes. Notoriamente a Lei de Pombal, cerceou e reprimiu radicalmente o acesso e o trabalho nos leitos dos rios diamantíferos.

O extremo rigor que se instalava no processo da extração de diamantes, sofreu mudanças. Mas não impediram o domínio controlador por parte de Portugal.

Saint-Hilaire retrata como se dava esta organização por volta do ano de 1817. Hierarquicamente, ela obedece a seguinte ordem:

Intendente dos Diamantes; Ouvidor ou Fiscal; 2 Tesoureiros; Guarda-livros;

7 Comissários ou Escrivães; 2º Tesoureiro (anteriormente: Administrador-geral - 1 Conselho (denominado: Junta Real dos Diamantes) com: direção do Intendente, 1 fiscal, 2 tesoureiros e o guarda-livros e um secretario sem direito a voto, as reuniões são convocadas quando o Intendente deseja, e há uma Assembléia Geral e anual com a presença dos administradores com direito a voto.

Nos trabalhos de relação direta com a extração de diamantes: Administradores Particulares que dirigem as tropas de escravos - sendo que nenhuma tropa completava o número de 200 integrantes; Cabeças ou Sub-administradores, (fiscais dos feitores); Feitores, (fiscais dos negros).

Os lugares de extração são denominados: “Serviços” e têm como trabalhadores, 1Guarda-armazém e 1 Moleiro; diferentes serviços são executados por Carpinteiros, Serralheiros, etc.

Na assistência social, o regulamento prevê para cada tropa um capelão e um cirurgião. O que quase nunca era seguido, por medidas de economia.
Os administradores alugam os escravos de particulares. Esses negros são tratados e vestidos pelos donos e recebem as ferramentas de trabalho do administrador.

“Cada semana os negros recebem para alimentação um quarto de alqueire de fubá, uma certa quantidade de feijão e um pouco de sal; a esses víveres ajunta-se ainda um pedaço de fumo de rolo.” (Viagem Pelo Distrito dos Diamantes, Saint-Hilaire - p 16)

Apesar de os negros viverem com saúde ameaçada por causa da precária condição de vida, eles preferem as minas aos seus proprietários. Pois, ali podem conseguir alforria, caso encontrem pedras de valor ou mesmo as furtem. E além disso reúnem-se em bandos para trabalharem, cantarem a terra natal. No entanto, quando um escravo comete uma falta, ele é amarrado e recebe em torno de 50 chibatadas.

O que, mesmo com tamanha vigilância, não impede o furto. Conseguia-se furtar bastantes pedras. Este costume era notório e constante no período; pode-se inclusive perceber um código a favor desta pratica. Com exceção, dos homens que visavam respeitar o Regimento de Pombal pela Coroa, ou melhor, os representantes de Portugal. Segundo Saint-Hilaire, “...nos lugares mais distantes, tão vastos e de população pequena(...) é impossível combater o contrabando e tolera-se o que não pode impedir”. Isso não significa que se possa limitar os contrabandos aos lugares pequenos.

“Quando os diamantes estavam menos difíceis de extrair, e mais abundantes, existia uma espécie de contrabandistas que se reunia em tropas e se distribuía pelos lugares onde essas preciosas pedras se achavam em maior abundância e eles próprios faziam a exploração.” (Saint-Hilaire, p 20)

Em conseqüência a essa prática (código), de se fazer “vistas grossas” a muitas retiradas de diamantes, está a origem da palavra “garimpo”, “...donde se formou de grimpeiro, por corrupção, a palavra garimpeiro.”

Desse modo, dentro de perspectivas diferentes, nascem os fatores que originam a Vila de Santo Antônio de Tiros. Os primeiros grupos a se instalarem na região, encontram aqui um homem, nato do sertão: todos que chegam, vêm para dominar. Pode-se, então, perceber uma organização peculiar formada na zona dos diamantes: dos índios nos sertões e nos Quilombos (e alguns negros); negros livres nos leitos dos rios (poucos, os alforriados); homens escravos; homens de Pitangui; homens de Tejuco; possivelmente alguns bandeirantes; trabalhadores dos governos e soldados.

Assim sucedeu-se a primeira fase do lugar que veio a ser Tiros. Homens que abriam picadas para poderem transitar de lugares já habitados para outros lugares em busca de diamantes, fazendo com que muitos anos depois ocorresse um período de desapontamento e de miséria para muitos, porque os leitos já não se abundavam de pedras.

No entanto, os que não empobreceram com a queda dos diamantes: eram os que haviam fugido para outras paragens; os que enriqueceram com os diamantes ou, os que investiram na agropecuária.

“Dispondo de condições naturais tão mais propícias e tão diversas do sertão nordestino, a pecuária em Minas Gerais também adotará padrões diferentes. O que logo chama a atenção é a superioridade nas condições técnicas(...) o mesmo se dá com os currais; (...) Mas, a grande e maior diferença, porque daí resulta um sistema de criação inteiramente diverso, está num pequeno pormenor: o emprego de obras divisórias, tanto externas dividindo a fazenda de suas vizinhas, como internas, separando-as de partes distintas. Empregam-se cerca de pau-a-pique, que as matas abundantes fornecem em quantidade suficiente. Usam-se também “valos” e ocasionalmente muros de pedras.” (História de Minas Gerais - João Camilo de Oliveira Tôrres, p 546)

Ainda hoje no município de Tiros, percebem-se muitas reminiscências destes muros. Elas conotam o quanto, em Tiros, a vasta área do município e a sua alternativa de voltar-se para a economia agropecuária têm herança numa organização tradicional. E mesmo que se frise o êxodo rural, que ocorreu nos anos de 1970, em Tiros o rural, no aspecto econômico, até em crise, ainda se sobrepõe ao urbano.

DE VILA À CIDADE

“A construção de Tiros é um ato de solidariedade. Esta é a lição que todos nós tirenses guardamos Para a vida e aprendemos a ensinar.” Aurélio Wander Chaves Bastos

Como já vimos, depois dos índios nativos, os próximos habitantes do Abaeté e Indaiá eram garimpeiros ou envolvidos ao garimpo. No entanto, nem todos conseguiam realizar os seus planos e retirar pedras que os garantissem. A economia de subsistência limitava-se aos investidores agropastoris, atraídos pela zona de mina de pedras preciosas. Muitos desses trabalhadores fugiam da seca violenta que, neste período, ocorreu em Pitangui. Questão ainda mais séria, era o fato de as minas irem se escasseando. Para que as famílias instaladas, à beira dos rios, pudessem alimentar e sobreviver necessitava-se pensar uma outra forma de subsistência.

“Esgotadas a mineração, (...), de produtos não renováveis, os mineradores se mudavam à procura de novas minas, deixando em suas esteiras resíduos de populações que se fixavam e se dedicavam a outras atividade renováveis, como a agropastoril. Foi o que aconteceu com as minerações nos Rios Indaiá-Abaeté (...)”. (Raízes de São Gotardo, José Pessoa – p 100)

Em meados de 1700, os donatários de Capitanias começaram a doar sesmarias aos tropeiros, com o intuito do povoamento. Constam como primeiros moradores da região Antônio Fagundes de Borba, em seguida Antônio de Morais Pessoa. A partir deles nasce a vila.

Ela concentrou-se em um lugar que hoje é denominado “Vila Velha”, como referência aos antigos moradores e ao espaço que habitaram. Nesta Vila, que é banhada pelo córrego das Pindaíbas, existiu um prenúncio de cidade.

“ A Vila Velha, como até hoje a chamam, era uma povoação que acompanhou o estilo das antigas aldeias que os bandeirantes plantavam pelos sertões do Brasil, geralmente ao longo do curso de um rio ou ribeiro.” (“Tiros... Ontem e Hoje”, Geni Chaves, p 43)

A emancipação da Vila para a Cidade ocorreu de modo gradativo, como se pode observar a seguir: em 1867, elevou-se à paróquia como Vila de Santo Antônio de Tiros e incorporou-se ao município de São Francisco das Chagas do Campo Grande; em 1870 incorporou-se ao município de Dores da Marmelada; em 1911, passou a distrito; 1920, distrito de Abaeté; 1922, um mutirão limpa a mata do planalto (chapadão da Lagoinha) para a mudança do distrito; reza-se a missa no local que viria a ser construída a matriz; Antônio de Monte Furtado projeta a planta da futura cidade; em 1923, pela lei 843, cria-se o município de Tiros, sendo Tiros o distrito sede e São José do Canastrão, Canoas e São Gonçalo do Abaeté outros distritos do município; em 1924, no dia 10 de fevereiro instala-se oficialmente o município; Leôncio Ferreira deu início a esta mudança em 1922; num fato memorável, sob a liderança de Zeca Bomtempo, 11 homens assinam um termo de compromisso de construção de casas no novo local. Dentre esses homens inovadores estavam: Francisco Faria Chaves, Ernesto Bomtempo, Sebastião Dias, Agenor Faria, João Pacheco de Macedo, João Cruz, Alfredo Dias, José de Morais Pessoa, José Antônio Pessoa, Ladislau Gurgel do Amaral, Laurindo Pessoa e o próprio José Bomtempo de Oliveira (Zeca Bomtempo).

“Foram êstes 12, portanto, os primeiros a efetivar a mudança. Só em 1926, quando as principais figuras do lugar haviam construído suas casas, é que o povo, em geral, começou a mudança. Esta prolongou-se por vários anos, até que, em 1934, já não havia nem uma morada na Vila Velha, e a nova tinha, então, 300 casas. A cidade artificial de Tiros é agradável, bela mesmo, com suas ruas de 15 m de largura, cortadas por avenidas de 20 m de largura e uma praça de 10.000m2.” (Dicionário Histórico Geográfico de Minas Gerais, Waldemar de Almeida Barbosa, p 514)

Deve-se registrar, portanto, que no lugar em que era a “Cidade velha”, ou melhor, na “Vila Velha” ainda existem moradores. Claro que não mais como moradores de vila, mas de chácaras. No local há um cemintério, que ainda traz visitantes a Tiros, para que visitem seus mortos. Entre as pessoas enterradas neste local, há muitos que influíram na história de Tiros. De resto, tem-se lá uma vista muito bonita, que olhada do alto da cidade nova, é chamada de Bela Vista. Talvez por isso, em torno, de 1970 e 1980 este lugar atraía diversas pessoas, sobretudo, jovens a realizarem passeios paisagísticos por ele. Também há de observar-se que a medida real da praça é de 14400 m2, o que a torna um modelo exemplar e raro, sem contar o desenho perfeito de seus traços.

Para pessoas ou descendentes dos que vieram a um sertão quase desabitado, uma cidade planejada com praça de estilo exemplar e tamanho abundante, pode-se dizer, que ao menos, no sentido do ideal urbano, elas estavam com o trunfo nas mãos.

O NOME DA CIDADE

“A história faz-se com documentos escritos sem dúvida. Quando estes existem. Mas pode fazer-se e deve fazer-se sem documentos escritos, quando não existem. Com tudo que a habilidade do historiador lhe permite utilizar para fabricar o seu mel, na falta das flores habituais. Logo, com palavras.

Signos. Paisagens e telhas. Com as formas do campo e das ervas daninhas. Com os eclipses da lua e a atrelagem dos cavalos de tiro. Com os exames de pedras feitos pelos geólogos e com a análise de metais feita pelos químicos.

Numa palavra, com tudo que pertencendo ao homem, depende do homem, serve o homem, exprime o homem, demonstra a presença, a atividade, os gostos e as
maneiras de ser do homem”. Febvre, in: Le Goff

Se uma cidade tem seus primeiros registros de formação na corrida pelo diamante, isso se faz de modo sempre muito arriscado, pode-se ganhar muito, como pode-se perder muito. Assim o desígnio do jogar tudo parece ter constituído um tirense valente, aventureiro e sonhador, haja vista a formação do nome da cidade.

No ano de 1790, quando se instalou a extração oficial de diamantes na região da Mata da Corda, para vigiar os “garimpos”, instalou-se também os quartéis. “Às margens do Rio Indaiá ficou o Quartel de São João e, no Ribeirão do Areado, hoje Córrego dos Tiros, foi construído o Quartel do Assunção.” A exploração continuou tanto oficial, quanto clandestina. Em 1801, numa busca pelos grimpeiros e contrabandistas, as tropas correram sertão à fora até encontrá-los às margens do Córrego Areado. A luta, então, foi intensa, causando inúmeras mortes, que fizeram banhar as águas de sangue. O nome “tiros” se resignifica nos acontecimentos históricos. A partir daquele instante, a palavra que antes conotava disparo de bala por revólver, para o povo desta terra passou a ser também batalha, conflito, perda, valentia, luta, tristeza, conquista, mudança...

O dicionário Aurélio registra a palavra “areado”, entre outros sinônimos, como “esfregado ou limpo”; ou ainda, “desnorteado, desorientado”. Numa analogia a estes significados: a batalha travada, fez com que as águas limpas fossem apenas lembranças da liberdade nas minas de diamante, elas haviam se manchado de sangue, instalando para sempre a proibição do garimpo. As águas sujas instalam o proibido, ou seja o código de lei punitivo.

Talvez nem tanto pelo regimento da lei de Pombal que assegurava a ação repressora daqueles quartéis. Possivelmente, mais ainda pelo processo daqueles envolvidos nas terras da mata da corda: que outrora esquecida, era neste momento, extremamente cerceada. Homens que viviam na e pela natureza, às margens de leis institucionais, viam-se obrigados a elas, sem qualquer preparo cultural e educacional para a compreensão desse ato institucional.

O nome do lugar, emerge então, como que dando um novo rumo a história, desta mini-pátria. É importante notar que entre 1590, data dos primeiros registros de homens civilizados nesta região, até 1790, data em que chegam as primeiras tropas, são duzentos anos de história. Sendo assim, o que os habitantes do lugar vivenciaram por conta de suas próprias realizações era maior em termos de influência da memória e da história. Embora sem caráter cerceador de lei, que sempre significa imposição; o que eles viveram foi, contrariamente a esta hegemonia da coroa, uma construção gradativa de identidade.

O Córrego Areado limpo de identidade, inscreve-se de vermelho para inaugurar o novo que traçaria um futuro, identificador. Talvez de sonho, de ideal. No entanto, o traçado não era mais desnorteador. Conquistou-se um lugar para o povo, um direito a construção da cidade e o nome do córrego passa a “Córrego de Santo Antônio dos Tiros”.

Depois como vimos, a concentração das pessoas se faz na Vila de Santo Antônio dos Tiros e o nome do anterior Ribeirão Areado é sintetizado para “Córrego dos Tiros”. A população de hoje, em referência à caráter tão desbravador, nomeia a cidade, desde a sua emancipação oficial, de simplesmente “Tiros”.

Foram também as águas, que fizeram com que a cidade se mudasse da Vila Velha para o Chapadão da Lagoinha. As chuvas provocaram um grande sulco na terra. Fala-se também da ocorrência de um abalo sísmico, que acentuou a erosão no lugar central da vila. Assim como a cidade subia, as perspectivas cresciam. A mudança se dava para um lugar plano, e seria a sua construção também planejada, num lugar em que os moradores não se viam ameaçados pelos fenômenos da natureza. Da beira dos rios ao Ribeirão Areado. Do Areado ao Córrego de Santo Antônio dos Tiros. Daí a Vila. Da Vila a Cidade. Tiros.

FATOS DE TRANSIÇÕES

“As ideologias revolucionárias do século XIX, se assentavam sobre uma noção de progresso que fazia do capitalismo, ainda que revestido de uma áurea triunfadora, um momento transitório, a ser superado da História. Esta superação decorria das próprias contradições do sistema, que engendrava conflitos(...)” Marco Aurélio Garcia

Um caráter que se sobrepôs nos processos da história de Tiros é o de romper os rumos dos acontecimentos sem que tenham chegado ao seu fim, ou ao seu propósito. Exemplo disto é a desintegração dos municípios de São Gonçalo do Abaeté e Canoas, em 1943, que passaram a constituir o Município de São Gonçalo do Abaeté; outro fator foi o da instituição da Comarca em 1948 e perdida depois. Mais recentemente, nos anos da década de 80, foi planejada, construída e empreendida uma Usina de Álcool, que demandou muito trabalho e gastos, sem chegar, entretanto, a efetivar-se verdadeiramente.

Percebe-se com estes aspectos o quanto o destino da população formada em Tiros sofreu influências de fatos instáveis, podendo por isso ter favorecido um caráter aventureiro como traço de identidade das pessoas.

Um povo que se instalou à beira do rio movido pelo sonho do diamante, diante da falta de meios fundamentais de subsistência, na ausência de infra-estrutura básica para se viver, não se vê totalmente atormentado. Pois, enquanto as atividades da extração e da agropastoril se mantinham, a primeira ia se tornando cada dia mais rara e a segunda mais constante. Nota-se, assim, que os antigos garimpeiros construíram uma miséria que a lavoura e o gado não conseguiram estagnar em sua totalidade.

O município que, como parte dos seus municípios vizinhos, poderia ter crescido e se desenvolvido mais, teve uma estagnação. Por longos anos, pouco se viu de novo acontecer na cidade em busca de empreendimento, condição de emprego e avanço no modus vivendi da população. Salvo, uma fábrica de queijos, que se mantém há mais de vinte anos, produz bastante e chega a exportar para o exterior; com esta indústria. Através dos Laticínios Tirolez todos os dias vê-se caminhões chegarem à cidade com leite para a produção de queijos variados, como prato; parmezão, mussarela, reino, provolone, etc.

No entanto, a mão de obra que a agropecuária, a Tirolez, o comércio e serviço público oferece é muito pequena. O tirense se vê na maior parte das vezes sem possibilidades de expectativas para conseguir viver com qualidade de vida em sua terra natal. Assim, muitos se mudam para grandes centros a fim de estudar e de trabalhar. Foi assim que em torno de 20 anos atrás, os tirenses começaram, pouco a pouco, a emigrar para os Estados Unidos no sonho do dólar, reafirmando sua gênese aventureira. Hoje são muitos os emigrados, sobretudo para New Jersey e a maior parte fica lá na condição de sub-empregado; trabalha muito; não fala a língua da terra; e, depois de muito labutar e se ver desintegrado, investe os dólares ganhos em Tiros, reafirmando um apego admirável pelo lugar de origem.

Hoje a cidade reflete uma imagem diferente. O empreendimento tem sido uma atitude mais constante. A aparência da cidade é mais bonita, por causa das novas edificações, que em sua maioria, são custeadas pelos trabalhos braçais na potência americana. E no município, pode-se ver fazendas, a cada dia, com mais gados, mais plantações e infra-estrutura. À parte, a crise da agropecuária e do êxodo rural, a economia agropecuária no município tende a firmar-se como atividade sustentável para a população.

POVO HOSPITALEIRO

“O sertão está em toda parte... o sertão é do tamanho do mundo”. Guimarães Rosa

O caráter do tirense é formado, sobretudo, pelo apego à sua terra. o tirense ama tiros, sem chegar ao ufanismo, pois o amor que sente pela terra natal não o cega aos problemas do lugar e não lhe tira o sonho de quaisquer das outras partes do mundo. Talvez por isso, a Festa do Tirense Ausente seja a iniciativa que mais se consolidou em tão pouco tempo. Em apenas 4 anos, é um sucesso absoluto, trazendo inúmeros tirenses à cidade.

A festa não só demonstra o gostar do filho pela terra, aponta também o sentido generoso e hospitaleiro que envolve o homem e a mulher do lugar. Todos se unem em prol da reforma da igreja.

“Nas grandes cidades, a vida é bem diferente. A participação é mais difícil e não define a vida comunitária no sentido de grande família, como acontece em nossa pequenina e acolhedora cidade de Tiros. Ali cada um tem algo a partilhar, a oferecer e a convivência é a geradora de verdadeiras e solidárias amizades.” (Tiros... Ontem e Hoje - Geni Chaves, pp 126/7)

Conclusão: Tiros - um pequeno Brasil

“O que é a experiência do tempo? Pode uma cultura falar do tempo sem recorrer às diversas formas de elaborar suas tradições e de narrar a História?”

(Contracapa do livro: “Tempo e História”)

Espera-se que este escrito tenha um fim temporário; ou seja, tomara que dele, com rapidez, nasçam fontes mais embasadoras e mais elaboradas de nossa história! A sensação da autora carrega a inquietação de que restaram muitas páginas para serem escritas. No entanto, cumpriu-se o que se pôde pesquisar e registrar.

A hipótese que pode nortear um histórico que queríamos mais explicativo é: Tiros é uma cidade pequena na vivência de uma microestrutura do País em sua macroestrutura. Exemplos: aqui foi rezada uma missa no local da cidade, antes que os futuros moradores se mudassem, em analogia à Celebração da Primeira Missa no Brasil no Monte Pascoal; para esta região eram mandados “marginais” ou os que desrespeitavam a lei de Pombal, assim como eram enviados os rejeitados de Portugal para o Brasil; também aqui, como nos primeiros pólos de povoamento brasileiro, os índios foram dizimados; e principalmente, o sonho do enriquecimento fácil que moveu os portugueses, também foi aqui, a mola precursora do desenrolar de nosso processo histórico.

Tiros,
Busca

NEWSLETTER

Cadastre-se e receba boletins informativos por e-mail.
Clique aqui para se cadastrar.

Qual a sua opnião sobre o novo site?
Excelente
Ótima
Boa
Regular
Pode Melhorar

Veja o resultado